O avanço descontrolado do peixe abotoado, também conhecido como armau (Pterodoras granulosus), tem provocado preocupação crescente entre pescadores profissionais e esportivos do Norte de Mato Grosso. Moradores e trabalhadores que dependem diretamente do Rio Teles Pires afirmam que, de alguns anos para cá, a espécie passou a se proliferar rapidamente na região, especialmente nas áreas influenciadas pela Usina Hidrelétrica (UHE) Sinop e nos municípios de Sinop, Colíder e Itaúba.
Segundo relatos de pescadores da região, antes pouco comum nessas águas, o abotoado passou a aparecer em grande quantidade após a implantação dos empreendimentos hidrelétricos no rio. Hoje, a presença da espécie é considerada por muitos como um dos principais problemas enfrentados durante as atividades pesqueiras.
“Onde antes saíam espécies tradicionais, agora o que mais aparece é o abotoado”, relata um pescador que atua há décadas no Teles Pires. De acordo com a categoria, além de danificar redes e equipamentos com seus ferrões e placas ósseas, o peixe ocupa espaço significativo nas capturas, reduzindo a rentabilidade da pesca artesanal.
A repercussão do problema ganhou ainda mais força nas redes sociais. O empresário Alexandre Batistello publicar um vídeo mostrando um grande cardume de peixes abotoados nas águas da região. As imagens chamaram a atenção pela quantidade expressiva de exemplares concentrados em um mesmo local, cenário que, segundo pescadores, tem se tornado cada vez mais comum no Rio Teles Pires.
Na publicação, o empresário demonstra surpresa com a dimensão do cardume e reacende o debate sobre a rápida proliferação da espécie nos últimos anos. Para pescadores profissionais e moradores ribeirinhos, o vídeo representa um retrato da realidade vivida diariamente por quem depende do rio para o sustento da família.
O empresário e influenciador Edgar Pacheco divulgou em suas redes sociais que o peixe abotoado pode ser capturado com as mãos.
As imagens reforçam os questionamentos levantados pelas comunidades locais: o que está provocando o aumento expressivo da população do abotoado? Há relação entre as mudanças ambientais decorrentes dos empreendimentos hidrelétricos e a expansão da espécie? Enquanto essas respostas não chegam por meio de estudos científicos aprofundados, os registros compartilhados nas redes sociais servem como alerta e evidenciam a preocupação crescente de quem conhece o comportamento histórico do Rio Teles Pires.
A preocupação vai além do prejuízo econômico. Pescadores afirmam que o crescimento acelerado da população do abotoado pode estar alterando o equilíbrio ecológico do rio, afetando a dinâmica das espécies nativas e modificando hábitos tradicionais de pesca.
Em 2021, pescadores da região já denunciavam o aparecimento incomum da espécie nas proximidades da UHE Sinop. Na época, especialistas alertaram que somente estudos científicos poderiam determinar as causas exatas do fenômeno, embora hipóteses relacionadas às alterações ambientais provocadas pelos barramentos do rio e aos mecanismos de transposição de peixes fossem levantadas.
A concessionária responsável pela UHE Sinop informou, naquele período, que nunca realizou ações de repovoamento com a espécie no Rio Teles Pires e ressaltou que qualquer introdução de peixes depende de autorização dos órgãos ambientais competentes. Entretanto, o fato é que a percepção dos pescadores é de que a proliferação do abotoado se intensificou justamente após as transformações sofridas pelo rio nos últimos anos.
Recentemente, a importância do tema ganhou ainda mais evidência. Em Mato Grosso, o Conselho Estadual de Pesca regulamentou procedimentos específicos para o transporte e comercialização do abotoado, atendendo reivindicações de pescadores que relatavam dificuldades no manejo da espécie devido à sua estrutura óssea rígida e espinhosa.
Diante desse cenário, pescadores cobram das autoridades ambientais estudos independentes e transparentes para avaliar os impactos da explosão populacional do abotoado sobre a ictiofauna do Rio Teles Pires. Eles também defendem a adoção de medidas de monitoramento permanentes que considerem o conhecimento das comunidades ribeirinhas, diretamente afetadas pelas mudanças observadas no rio.
Enquanto respostas definitivas não chegam, quem vive da pesca no Norte de Mato Grosso segue convivendo com uma realidade cada vez mais evidente: o abotoado deixou de ser uma raridade para se tornar presença constante nas águas do Teles Pires, alterando a rotina, a renda e a própria relação das comunidades tradicionais com o rio.
Qual é o papel do peixe abotoado no ecossistema?
Apesar das reclamações dos pescadores, especialistas destacam que o peixe abotoado desempenha uma função importante no equilíbrio dos ambientes aquáticos. A espécie é considerada detritívora e onívora, alimentando-se principalmente de restos de matéria orgânica depositados no fundo dos rios, pequenos invertebrados, frutos e sementes. Dessa forma, atua como uma espécie de “faxineiro natural”, contribuindo para a reciclagem de nutrientes e para a limpeza do ambiente aquático.
No entanto, quando ocorre um crescimento populacional acelerado e fora dos padrões históricos observados pelos moradores locais, o papel ecológico do abotoado pode deixar de representar apenas um benefício ao ecossistema e passar a gerar desequilíbrios. Uma população excessiva pode aumentar a competição por alimento e espaço com outras espécies nativas, além de alterar a dinâmica da pesca artesanal.
Por isso, pesquisadores defendem que o problema não está necessariamente na existência da espécie, que é nativa de bacias amazônicas, mas na necessidade de compreender por que ela passou a ocorrer em densidades tão elevadas na região do Rio Teles Pires. A resposta depende de estudos científicos que avaliem os efeitos das mudanças ambientais ocorridas nos últimos anos, incluindo a formação de reservatórios e alterações no fluxo natural do rio.
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